Minha querida Belinha

Temos sempre presente nas nossas memórias alguns episódios que por muito que o tempo os desgaste nunca desaparecem. No dia em que nasceu a nossa filha, éramos os quartos em linha para uma série de nascimentos. Mantiveram as grávidas no limbo durante a noite e logo pela manha entra uma trupe de enfermeiros e médicos para lhes aliviar o “peso”.
No quarto do lado, em apenas alguns minutos, pelo que se entendeu, nascia uma pequena gata ou assim deu a entender pelo miar esganiçado a fazer de choro. Obviamente que não lhe demos muita importância, pois estávamos a seguir na lista para continuar aquele sprint médico. Alguns meses mais tarde quando a Nuria foi para o infantário e após um período de familiarização com as outras crianças e famílias descobrimos que a bebé que tinha nascido minutos antes da Nuria era afinal uma das futuras companhias na mesma sala. A Belinha era um pouco mais magra mas tinha um sorriso aberto e castiço.
Depois de um período de muitas doenças e constipações que atacavam na generalidade todas as crianças, acabamos por tirar a Nuria do infantário pois não tínhamos condições de passar tanto tempo em casa com ela. Viemos a saber pouco tempo depois que a Belinha tinha sido hospitalizada e que a situação era grave. Vindo de uma família carenciada, o pouco (ou deficiente) acompanhamento que teve levaram a que uma doença se desenvolvesse até ao ponto crítico. Foi-lhe detectado um linfoma e no IPO foi-lhe imposto um grande número de tratamentos, tanto quanto aceitáveis para o frágil e pequeno corpo dela.
Foi fazendo alguns telefonemas para o infantário para ir sabendo do estado da pequena e foi tendo notícias de melhorias e recaídas. A Nuria fez três anos há dias e então contactei novamente o infantário para saber como se encontrava.
Soube agora que lhe dão pouca esperança de sobrevivência e que lhe foi induzido coma para amenizar as dificuldades.
Escrevo estas palavras com uma imensa tristeza. Escrevo-as porque sei que poucas pessoas se lembram dela ou a conhecem. Nestes momentos difíceis e de pouca esperança peço a Deus e aos nossos Anjos da Guarda que tomem conta dela. Que todas as nossas preces lhe guiem e ajudem a encontrar a luz. Não consigo sequer imaginar como será perder alguém tão pequeno.
Um abraço de esperança e um beijo de carinho e amor de nós todos.

1 comment:

Z said...

arrepiei-me a ler isto... penso na minha filha e sinto uma angustia enorme por pensar "e se fosse ela?"
e sim, podia ser ela, podia ser a núria ou outra qualquer criança. não é justo que um ser tão pequenino e perfeito tenha de passar por tanto sofrimento. o pior de tudo, é sentirmo-nos impotentes. e isso dói.
um beijo sentido para a belinha, e que a esperança seja a última a morrer