
Ainda não aprendi a reagir ao comentário “Que paizinho tão babado!”, um daqueles “clichés” que somos agraciados sempre que nos vêem de recém-nascido ao colo.
Sentimos, desde o momento que sabemos da notícia, que as coisas vão mudar. Sentimos sobretudo que o nosso papel, o do pai, daí em diante é de mero espectador em que por vezes intervimos na acção, mas muito pouco. Como tal vamo-nos preparando da melhor forma que podemos para “o grande momento” tendo como background informações colhidas pela experiência dos outros e pelas memórias visuais que temos de dezenas de filmes que vimos sobre o assunto. Pensamos que nunca será demais ter informações extras sobre o assunto para depois no momento estarmos hiper preparados. Sinceramente, não ajuda em nada, só contribui para o nervosismo miudinho que se vai acumulando enquanto se espera pela dilatação adequada. É um momento que é sempre diferente para todos e devemos ir relaxados, tanto quanto possível, para estarmos preparados para as adversidades.
O parto, de facto, tem muito pouco do grafismo visual que estamos habituados a ver nos filmes. Sabemos de antemão que não são todos iguais mas penso que o desvio daquilo a que assisti não deve ser muito.
Não sou vigoroso de emoções, por isso quando ma colocaram nos meus braços pela primeira vez, deram-me para a mão um misto de emoções e preocupações que desde aquele momento tem vindo a crescer. O amor imaginário que tinha por ela de repente era real e crescente. Senti, como pai, uns dias mais tarde a diferença entre a relação que teria com a bebe e a relação que já existia há muito entre ela e a mãe. Apanhei-as frente a frente a olhar uma para a outra como que se estivessem a sussurrar segredos de tempos passadas, sem que eu pudesse perceber sequer o teor da conversa. Como pai senti que nunca teria um momento como aquele. É obvio que levam nove meses de avanço na relação e uma cumplicidade física que nunca partilhei, mas mesmo assim não me senti excluído nem negligenciado naquele momento. Tenho um outro papel, que a medo tenho vindo a descobrir e a alimentar. Este medo não está associado à dor física mas sim à insegurança relativamente a tudo que se passa à minha volta. Estará tudo bem? Estarei a agir de forma correcta? É desta ou daquela maneira que se faz isto? Porventura serão actos e pensamentos que temos muitas vezes na vida só que desta vez as consequências podem ser prejudiciais a uma criatura linda e indefesa que está a li a contar connosco para a orientarmos para a vida. (…)
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